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ModaLisboa: A criatividade do futuro chama-se Sangue Novo

Rita Afonso – primavera-verão 2018 – Moda feminina – Lisboa


Sentiam-se os nervos e a vontade de conquistar o mundo nos bastidores do Pavilhão Carlos Lopes, nos momentos que antecediam o desfile dos designers emergentes do concurso Sangue Novo, responsável pela abertura do primeiro dia da ModaLisboa, na passada sexta-feira, 6 de outubro. Emoções naturais, que não estavam em desacordo com o talento que transbordou na passarela. A mensagem foi clara: Portugal é juventude artesanal. E tem muito para contar.

Horas antes de ser anunciado vencedor do prêmio da ModaLisboa, David Pereira expressava as suas ideias como um vulcão em erupção. “Apresento um indivíduo confuso e desorientado na cidade em constante mudança”, explicava, antecipando que apresentaria uma coleção outono-inverno ao invés de primavera-verão 2018, como seria esperado.

“As roupas evoluem a partir da nova interpretação do indivíduo, que não sabe como usá-las e acaba por lhes dar um novo uso”.

Filipe Augusto – primavera-verão 2018 – Lisboa


Inspirado nas grandes metrópoles, como Paris, onde o luxo extremo e as tendências de moda convivem lado a lado com a exclusão social mais extrema, David Pereira apresentou uma metamorfose da imagem, entre jogos de volumes e de interpretações sportswear, que seguem o inteligente caminho traçado por Demna Gvasalia à frente da Balenciaga e da Vetements. Originalidade pós-moderna e acabamentos de qualidade que passaram o exame atento de Suzy Menkes, recém-chegada da Semana da Moda de Paris.

“Preferia explicar a coleção em português, em vez de o fazer em inglês”, pedia Filipe Augusto, quase se desculpando, com receio de que os detalhes se perdessem devido à barreira linguística. E o jovem criador de “7 Saias” tinha razão. As suas criações masculinas só podem ser compreendidas olhando para o Atlântico, numa coleção que tem como ponto de partida as “Sete Saias da Nazaré”, o traje tradicional das mulheres nazarenas, que está repleto de referências ao universo piscatório.

Crochet que envolve os corpos como se de redes se tratassem e aventais clássicos em xadrez, desconstruídos numa revisão original da androgenia. Uma inspiração folk que vai ao encontro da modernidade com detalhes prateados, culminando com o techno da peça-chave da coleção: um impermeável verde metalizado às riscas. Uma timidez que conquistou a passarela e lhe valeu o prémio ‘FashionClash’, atribuído por Branko Popovic, codiretor do festival de moda com o mesmo nome, e que o levará a representar Portugal na edição de junho de 2018, em Maastrich.

Uma experiência já vivida, há um ano, pela criadora Rita Afonso, e que a fez ganhar plena consciência da importância da qualidade do produto e das matérias-primas, questões que se deixam ver claramente na sua nova coleção. “Temos de promover a educação da moda sustentável”, dizia. “O consumidor tem que aprender a comprar menos e melhor”.

David Pereira – primavera-verão 2018 – Moda feminina – Lisboa


Responsável pela coleção mais madura da última edição do Sangue Novo, Rita Afonso apresentou uma ode ao “tédio” descrito por Walter Benjamin, com mulheres penduradas pelos cabelos, vestindo peças de linho que foram buscar uma clara imagem de marca a estampados reconhecíveis e acessórios de pele sobredimensionados em forma de mãos. Uma proposta cuja experiência lhe permitiu conjugar na perfeição o artístico com o comercial e lhe valeu o prémio de distribuição com a concept store The Feeting Room, com lojas em Lisboa e no Porto.

Rita Sá, que recebeu uma merecida menção honrosa, optou por uma desconstrução do asfalto, materializada num estudo morfológico de roupas desportivas que vão um passo além da sua utilização esperada. Já Frederico Cina apostou num interessante trabalho do couro e das texturas, enquanto Ivan Almeida optou por uma proposta visual de designs assimétricos, que se encadeavam ao longo do desfile.

A moda portuguesa precisa de estratégias comerciais e de um impulso económico que garanta a sua confortável sobrevivência, fazendo frente aos vizinhos gigantes da fast fashion e aos grandes conglomerados de luxo. A matéria-prima de qualidade e o talento já os tem. Talvez só falte acreditar tanto no projeto como acreditam os seus jovens criadores. Aqueles que gaguejam e se escondem timidamente na hora de falar dos seus designs de sucesso são os que, na verdade, têm nas mãos o futuro da indústria

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